Estamos estreiando a coluna de entrevistas hoje, esta seria inédita se não fosse exatamente a que foi publicada na sexta-feira passada no www.zonapunk.com.br.
Agradecemos ao Wladmyr Cruz pela gentileza de nos linkar em seu site e pelas palavras.
Wladmyr Cruz e Zona Punk por ele Mesmo!
BLOCOSE7E – Olá Wladimyr, primeiramente gostaríamos de agradecer pela entrevista. Conte-nos um pouco sobre sua atuação na área de comunicação, como começou e quais os objetivos que buscava nessa área.
Na área de comunicação, desde que eu nasci, pois a comunicação é algo vivo e toda e qualquer ação nossa, comunica algo. Mas no sentido de mídia, jornalismo e quetais, fazendo fanzines no começo dos anos 90, aqueles de xerox, batido a máquina mesmo, depois evoluindo para um formato com diagramação eletrônica, por volta de 1996, chamado Rebel Magazine, e em 1999 o Zona Punk. Ao lado disso, escrevendo para outros veículos como free-lancer, tanto em materiais mainstream quanto revistas de rock, por exemplo.
Na área de comunicação de massa, também atuei em rádios, produzindo e/ou apresentando programas em rádios, também, tanto mainstream quanto rádios pirata em cima de morros, estas sim as mais bacanas.
O objetivo de tudo isso? Sempre me envolver com o que mais admiro, a cultura pop, ou se preferir, com o rock e seus correlatos.
BLOCOSE7E – Qual foi a influencia da cultura punk na sua vida? Você acredita que hoje ainda existe influência dessa cultura nas artes e na formação ideológica dos jovens?
A cultura punk foi crucial na minha vida, me fez rever conceitos e idéias, abriu minha mente e me fez enxergar muitas coisas de outra forma. Claro que no começo, quando ainda se é jovem, se vê a cultura punk como algo a ser seguido, com doutrinas punk, ser anarquista é quase obrigatório, xingar o sistema sem nem saber o que ele é etc etc, e conforme passa-se o tempo, você vai absorvendo o que há de melhor (e mais confortavél) pra sua vida e limando o que não passa de frescor e burrice juvenil.
A influência do punk está em tudo que faço, e em muitas coisas que nos cercam. Se o “do-it-yourself” é o principal do punk, podemos usar como exemplo gigante hoje o wikipedia.org por exemplo, onde você faz sua própria enciclopédia. Na minha vida, nada mais do-it-yourself do que o Zona Punk, criado num computador tosco e hoje é o que é. Nas artes, ainda encontra-se traços de punk, seja no surrealismo, na fotografia, ou até nas fontes copiadas do “Never Mind The Bollocks” que são usadas em tudo hoje.
O punk abriu tentáculos em todos os meios, desde os mais tecnologicos até os mais arcáicos, e todos eles souberam sugar um pouquinho do punk e transforma-lo para seu próprio uso, seja ele bom ou ruim.
Já na parte ideológica, acredito que com todas as opções que temos hoje, de internet por exemplo, o do-it-yourself também está presente. Molecada fazendo bandas, clipe caseiro, etc. Não todos, verdade, mas boa parte deles trazem ainda o frescor do punk em suas manifestações. Mas acredito que punk nao é ideologia nas pessoas, é estado de espirito.
BLOCOSE7E – Você consegue identificar nessa geração que é rotulada de emo, alguma expressão cultural marcante ou algum interesse em uma proposta política de democratização dos meios de comunicação como houve em sua época?
Não existe preocupação política no “emo” (lembrando que isso de hoje não é emo), se existe algo, é mais social, e sem intenção na verdade. Por causa dos “emos”, a sexualidade ficou mais escancarada na “cena”, assim como o preconceito. A bisexualidade, o visual afeminado, tudo isso contribuiu para a quebra e a criação de tabús em nosso meio. É um absurdo haver preconceito no meio punk, rock em geral eu diria, um estilo que começou com negros do blues/rock n roll quebrando barreiras raciais, tivemos o glam e o glitter quebrando barreiras sexuais, o punk destruindo barreiras do sistema etc, é burrice discriminar os emos por causa do seu visual ou seu dialeto miguxês.
Emo é uma moda jovem, como foi surf nos anos 80 no Brasil, o Grunge no mundo todo nos 90. É só isso, moda jovem, que pode tanto estar na Malhação quanto num show do Fugazi.
Aquele boom do emo no Brasil, já passou, os emos de ontem hoje piram no The Killers e em cocaína em baladas descoladas. Uma nova geração já já estará ai com outra proposta/moda, e espero que venha com mais conteúdo e atitude, e se mesmo assim não vier, que não venha pra ser alvo de preconceitos, pois discriminação é burrice em qualquer escala.
BLOCOSE7E- Não acredita que a facilidade de informação, mas pouco conteúdo e embasamento pode gerar uma sociedade prepotente e arrogante, que de certa forma se engana ao pensar que saber um pouco de tudo é ter total conhecimento de todas as situações?
É óbvio. A facilidade que se tem hoje à informação faz com que todos saibam “tudo de tudo”, mas na verdade, não sabem nada de nada. A grande maioria é uma cruza bizarra entre o Caetano Veloso, Jô Soares, Wikipedia e NME.
BLOCOSE7E – Qual é o caminho para criar cidadãos mais críticos e que tenham conceitos formados por suas próprias opiniões? Como levar a eles um material de qualidade, sendo que há pouquíssimo investimento em atividades que estimulem expressões artísticas?
Não acho que o meio seja responsavél por isso, mas sim o próprio cidadão. Você tem a oportunidade de ler, ver, ouvir, consumir milhões de coisas, várias delas gratuitamente, só não faz porque não quer, porque é acomodado.
O caminho é a pessoa ter consciência de que cultura nunca é demais, que aprender é algo constante, e que o ‘diferente’ não é ruim, ela precisa ir lá e conferir, para assim poder ter mais bagagem e poder criticar ou elogiar com propriedade.
Tá tudo ai, internet, jornal, revista, tv, casas de cultura, várias opções gratuitas, semi-gratuitas ou mesmo caras, (para quem pode ter acesso) é só ir atrás e se informar.
BLOCOSE7E – Veículos como o Jornal Antimidia e Zona Punk são muito importantes para informar e opinar sobre assuntos ligados a um movimento cultural fortíssimo que estão inseridos. Como foi/é participar destes veículos?
A credibilidade do Zona Punk é algo assustador as vezes, e a responsabilidade é grande. O Antimidia também é forte demais, mas ali é outro departamento. É como se o Zona Punk fosse o Jornal Nacional e o Antimidia o Noticias Populares.
O Zona Punk não tem a intenção de formar ninguém, informamos e opinamos, e queremos que o leitor pense, que ele tenha suas conclusões sobre o que está sendo exposto.
Acho máximo quando alguém fala que descobriu tal banda no Zona Punk, ou que ficou sabendo de tal coisa no Antimidia, me sinto feliz em estar contribuindo para o conhecimento da pessoa.
BLOCOSE7E – A alternativa de criar um selo independente que lança compilações e trabalhos inteiros de artistas em formato virtual é o melhor caminho para contornar a decadência da indústria fonográfica?
Não sei se é a melhor maneira, mas é uma alternativa, pois faz com que a banda chegue gratuitamente à pessoas que podem conhece-la, e assim ir ao show, local onde, em teoria, a banda deveria recolher o verdadeiro reconhecimento, tanto do público quanto financeiro.
BLOCOSE7E – Como encara o término ou paralisação de importantes bandas do cenário independente este ano? Consegue achar uma explicação pra tantas terminarem no mesmo ano?
Sim, existem duas possibilidades grandes: 1) cansaram de se foder tanto na mão de picaretas; 2) se frustraram ao ver que jamais chegarão aos pés do NxZero e que vão passar o resto da vida tocando em lugares fedidos com equipo ruim. Basicamente isso.
Tivemos grandes perdas este ano: o Polara, o Noção De Nada, o Street Bulldogs… Mas o bacana é que todas elas deixaram um belo legado, em sua maioria também, saudades, pois estavam no auge de suas carreiras.
BLOCOSE7E – Pras gravadoras e bandas do mainstream a crise está sendo turbulenta e para as bandas independentes como você enxerga esse avanço do mp3 sobre os CDs?
“It’s evolution, baby. Do the evolution.” já dizia o gruge em outrora. Esse papo está batido já, o cd não vai morrer, vai virar igual vinil, mas ainda tem tempo pra ele morrer. As saídas inteligentes são as de oferecer um atrativo a mais com o cd, caso dos dual-discs, mas acho que o futuro é mesmo o lance da música digital, itunes, iphone, isex, iporratoda, enfim. Mas vai demorar, muito.
Para as bandas independentes isso é tão bizarro quanto pras do mainstream, com a única diferença é que com o myspace, tramavirtual da vida etc, fica mais fácil o acesso das bandas independentes ao público, principalmente com a morte declarada das rádios e da MTV. Ganha-se em quantidade, perde-se em qualidade, mas o que importa é a possibilidade e a democratização da música como um todo, dando oportunidades (quase) iguais a todos.
BLOCOSE7E – Você compra CDs ou aderiu ao MP3 por completo? Qual foi sua última aquisição?
Compro sim, não consigo me livrar deste vício.
Tudo que é multimidia (ou nem tanto) eu consumo sempre, os originais, ou seja, cd, dvd, livro etc. E recomendo que compre tudo isso em sebos, pois é lá que encontra-se o melhor preço, e claro, as raridades.
Acho que as últimas aquisições…De cd foi um do The Hissyfits, disco raro, que comprei via Ebay. De DVD, edição dupla do “Willy Wonka and the Chocolate Factory”, em promoção nas Lojas Americanas. Livro? Acredito que uma biografia do Sting, daquelas não autorizadas, recheadas de fofocas e histórias exageradas.
BLOCOSE7E – Quais são seus projetos futuros e o que podemos esperar para a próxima Vans Zona Punk Tour?
A Vans Zona Punk Tour é um monstro torto, algo gigante e que sempre trás um montão de problemas, e quando achamos que temos solução pra todos, aparecem novos problemas e faz com que nosso mês de tour seja o céu e o inferno diariamente.
Para 2008, a tour vai continuar, do mesmo jeito, mas com algumas modificações importantes. Como sempre, aprendemos com os erros e acertos, e assim vamos caminhando até chegar num formato ideal para todos.
Posso adiantar que a tour 2008 terá uma pré-temporada grande, e a sua banda, leitor, poderá tocar na tour. vai ser uma experiencia nova, algo que estamos bolando ainda e que poderá trazer novos horizontes ao projeto.
Além da tour, temos diversos outros projetos, e já temos vários em andamento, mais do que conseguimos controlar na verdade, mas todos sendo feitos com amor e responsabilidade, eu acho.













