Acaba de chegar em minhas mãos, um exemplar do livro Não devemos Nada A Você, lançado aqui no Brasil pela Edições Ideal. Pensei em fazer uma resenha bem bonita e caprichada assim que terminasse de ler, mas encontrei o release oficial feito pelo Ricardo Tibiu – dono e proprietário do zine e do site Chiveta – e achei que nada mais poderia ser feito.
Por tanto deixo com vocês o Release oficial.

Faça você mesmo, afinal você não deve nada a ninguém!
Não existe uma didática que ensine como ser punk. Para ser médico ou advogado é preciso passar pelo processo natural: estudo, faculdade, graduação, pós, residência/estágio, concurso etc. Para ser punk basta vocação. Não se aprende na escola, não está nos livros… Opa, não estava!
A Edições Ideal acaba de fazer seu primeiro lançamento internacional, “Não Devemos Nada A Você – Punk Planet: Coletânea de Entrevistas”, do original “We Owe You Nothing – Punk Planet: The Collected Interviews”. O livro saiu em 2001, via Akashic Books, trazendo um apanhado com 24 entrevistas publicadas na revista norte-americana Punk Planet, consideradas essenciais por seu editor Daniel Sinker, que as escolheu entre 300 outras.
Em julho de 2007, a revista encerrou suas atividades aos 13 anos e 80 edições, em novembro o livro foi reeditado ganhando nova introdução de Sinker e seis entrevistas mais.
“Não Devemos Nada A Você” não é um manual de como ser punk, mas ele mostra que dentro do termo cabem muito mais ideais, pensamentos e atitudes que se poderia supor.
Há conversas fantásticas, de verdadeiros ícones, gente que ajudou a mudar e a moldar a história da música independente e serviu de referência para jovens (músicos ou não) no mundo todo. Caso do desbravador Ian MacKaye, que do final dos anos 70 até hoje está envolvido com o Do It Yourself sem precisar da ganância (e cifras) das grandes gravadoras. Para fugir disso ele montou a dele, Dischord, e influenciou diferentes gerações que o acompanham por suas diversas empreitadas: Teen Idles, Minor Threat, Embrace, Fugazi e, mais recentemente The Evens.
O livro também traz outros nomes de peso que romperam a fronteira do punk e a grande mídia viu-se obrigada a conceder um espaço em seus veículos. Como Jello Biafra, o emblemático vocalista do Dead Kennedys e proprietário do selo Alternative Tentacles, que fala de política, dos “novos punks” Green Day e Offspring, cutuca o engajamento inofensivo de Eddie Vedder, do Pearl Jam, e ainda cita o Brasil na conversa.
Thurston Moore é daqueles casos de unanimidade: amado por crítica e público. O guitarrista/vocalista e seu Sonic Youth transitam com passe livre há quase três décadas por terrenos variados – do punk rock ao pop mainstream, passando pela música avant-garde. É divertido vê-lo confidenciar (segredo até para seu companheiro Lee Ranaldo) de que banda famosa ele roubou riffs por um bom tempo.
Kurt Cobain, finado líder do Nirvana, comparece através de citações de gente que trabalhou com ele ou o influenciou. Como o carrancudo produtor Steve Albini – um dos responsáveis pelo hoje clássico In Utero (1993), que deixa claro sua aversão às grandes gravadoras e modernidades na hora de trabalhar – e Bob Mould num longo depoimento sobre seus cultuados grupos (Hüsker Dü e Sugar), seus experimentos eletrônicos, homossexualismo, carreira solo, blog etc.
São raros os grupos que mesmo com constante troca de formação, mantenham-se ativamente com a mesma intensidade e sem que isso tire o crédito ou a qualidade de sua obra. O Black Flag é uma dessas preciosidades; é a banda de hardcore cuja importância e o amor de seus admiradores são imensuráveis a ponto de talvez ser o logotipo mais tatuado na história do gênero. “Não Devemos Nada A Você” saciará aos seguidores (que carregam o sentimento por essa lenda marcado na pele) através das conversas com seus principais personagens: o “dono” Greg Ginn, o baixista Chuck Dukowksi, os dois primeiros vocalistas, Keith Morris e Dez Cadena, a baixista Kira Roessler, o baterista Bill Stevenson e o mais celebrado vocalista, Henry Rollins. Cada um dá sua visão do que passou, então é possível que em determinado momento você ame um personagem que no depoimento seguinte vire o vilão e te faça odiá-lo. Se é para criticar e pegar pesado, eles fazem, e por mais que sejam ídolos, eles têm defeitos; são seres humanos, logo erram!
No geral, o livro exala sinceridade, capta momentos em que os entrevistados sentem-se confiantes ao falar para um veículo que coloca as palavras como foram ditas – Sinker explica isso na introdução – não há texto corrido, são perguntas seguidas de resposta: jamais a interpretação do que foi dito. Quando era para ser ácido, o entrevistado foi, então ao longo das páginas o leitor encontrará picuinhas, fofocas e rusgas que talvez nem pudesse supor. A entrevista com o Jawbreaker é um bom exemplo. Extremamente cultuado no underground, o trio californiano pulou fora desse cenário ao assinar um contrato com uma major (Geffen) e viu tudo ruir. Do sonho de poder passar o tempo que fosse no estúdio caríssimo à rejeição do disco (Dear You, de 1995) por seu público e brigas que chegaram às vias de fato durante uma turnê com o Foo Fighters.
Depois do fim, o baterista Adam Pfahler abriu uma videolocadora, tocou em pequenas bandas e fundou o selo Blackball Records, o baixista Chris Bauermeister entrou no Horace Pinker, mas optou por continuar os estudos, obtendo Ph.D. em História, e o guitarrista/vocalista Blake Schwarzenbach chegou a escrever para a revista Spin, depois formou o elogiado Jets To Brazil. Separadamente eles colocam tudo para fora, da ingenuidade e alegria do começo ao triste fim culminando em cusparadas e agressões físicas entre eles.
Dentro do punk, no começo dos anos 90, um movimento mostrou o poder das mulheres, o riot girl. Ligado diretamente ao feminismo, seu principal expoente foi o Bikini Kill. E a conversa – antes de formar o grupo dance-punk (ou electroclash) Le Tigre – com sua líder, Kathleen Hanna, começa falando exatamente do fim do grupo, sem deixar de lado as dificuldades, o preconceito dentro do próprio punk, a distorção do riot girl pela mídia e as críticas que recebeu em 1994 por aparecer no clipe de “Bull In The Heather”, do Sonic Youth. Além de seu projeto solo (sob a alcunha de Julie Ruin) e o “girl power” das Spice Girls.
O riot girl prossegue no livro através de um trio com sonoridade muito própria: o Sleater-Kinney. A baterista Janet Weiss e as guitarristas/vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker falam sobre método de composição e letras, e a diferença de tocar nos lugares pequenos (do começo) para os grandes após a notoriedade que ganharam. E, novamente, o assunto de como a mídia através de jornalistas ruins pode distorcer as palavras ou os preguiçosos que simplesmente copiam os releases (alguns farão isso com esse texto, mas quem se importa?). Jody Bleyle é outro nome de fundamental importância, tanto para o riot girl quanto à luta homossexual dentro do punk, e que está nas páginas de “Não Devemos Nada A Você” por conta de sua atuação no selo Candy Ass, e nas bandas Hazel e, principalmente, Team Dresch.
O girl power é marcado ainda pela entrevista com o trio indie rock The Gossip, em 2004 antes tornar-se hype. Mesmo quem não aprecia sua música acaba simpatizando com a vocalista Beth Ditto, o guitarrista Nathan Howdeshell e a baterista Kathy Mendonca, que falam com tamanha simplicidade que beira o ingênuo – como ao contar da influência opressora da religião de onde vieram, no Arkansas, até a raiva que sentem quando os colocam no mesmo “bolo” de White Stripes e Yeah Yeah Yeahs.
A diversidade punk reflete nas páginas: Negativland [colagens, samples, gravadora própria, polêmica com o U2]; Los Crudos [integrantes de origem latina, saíram de Chicago para rodar o mundo – Europa (onde se decepcionaram), Japão e América do Sul – cantando em espanhol, defendendo o direito dos homossexuais e lançando tudo pelo próprio selo]; o guitarrista Porcell [um dos pilares do drug free hardcore e straight edge (através das bandas Youth Of Today e Project X) narrando um acidente quase fatal com a van do Shelter (grupo Krishna-core que alcançou relativo sucesso) e sua religiosidade]; Duncan Barlow [renegou o hardcore aos 26 anos depois de tocar nos grupos Endpoint, Guilt e By the Grace of God e de desilusões ao ser espancado em um show acusado de ser “bicha”]; e Ted Leo [estreou no underground em 1989 com o Citizens Arrest, passou pelo Chisel (que chegou a tocar com Radiohead e Cranberries), The Sin Eaters, até se definir como Ted Leo/the Pharmacists].
A ação de quem está nos selos também tem destaque:
Ruth Schwartz [da Mordam, que distribuía Alternative Tentacles (Dead Kennedys), Lookout (Green Day), Kill Rock Stars (Elliott Smith), Jade Tree (Promise Ring) e Amphetamine Reptile (Melvins)], o hoje reconhecido artista gráfico espanhol Frank Kozik [fundou o Man's Ruin em 1994, inicialmente lançando somente em vinil (quando ninguém dava bola para isso) nomes como Kyuss, Hellacopters e Queens Of The Stone Age]. Articulado e com uma língua afiada ele conduz a entrevista sem medo de soar politicamente incorreto, fazendo questão de desagradar os idealistas de esquerda.
Matt Wobensmith ajudou a criar o termo queercore, ele falou de seus selos, Outpunk (também fanzine) e Queercorps, e assim como diversos outros entrevistados falou mal da “bíblia punk” Maximum Rocknroll. Derek Hogue, do G7 Welcoming Committee Records, expõe o radicalismo do selo que ao completar 10 anos em 2007 decidiu parar de vender CDs. O motivo? Os subprodutos tóxicos que servem de matéria prima; deixando de lançá-los ajudam a diminuir o impacto da indústria fonográfica no meio ambiente.
“Não Devemos Nada A Você” dá voz também à arte independente que caminha paralelamente ao punk e ao ativismo político que está intrinsecamente ligado à música. Assim, microfones e páginas abertas para pessoas que usam o Do It Yourself como instrumento de trabalho e forma de expressão. São elas: Winston Smith [artista gráfico responsável pelo logotipo do Dead Kennedys e ilustrações de discos e cartazes], Jem Cohen [dirigiu o documentário Instrument sobre o Fugazi, e vídeos para R.E.M. e Elliott Smith], Miranda July [cineasta que saiu do underground onde fazia arte performática entre shows de bandas, para ganhar o Caméra d'Or no Festival de Cannes], Art Chantry [artista gráfico avesso às grandes corporações e computadores, fez ilustrações para Mudhoney, Nirvana, Soundgarden], Noam Chomsky [crítico severo da mídia de massa, “o oitavo autor mais citado de todos os tempos, depois de Platão”, segundo Partha Banerjee, membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais], Mike Burkett [vulgo Fat Mike, vocalista/baixista do NOFX, cuja conversa gira em torno do site Punkvoter.com que fundou em 2004, cadastrando mais de cem mil jovens eleitores para votarem contra George W. Bush], Melissa e Trisha [integrantes do Central Ohio Abortion Access Fund, organização sem fins lucrativos que dá assistência a mulheres que buscam um aborto seguro e legal], Kathy Kelly, Jeff Severns Guntzel e Michael Bremer [membros do Vozes no Deserto, organização humanitária que tem como objetivo acabar com as sanções impostas ao povo do Iraque], Han Shan [diretor de programa da Ruckus Society, que atua com ação direta, lutando por justiça social e direitos humanos e animais, e que treina ativistas para protestos] e Jon Strange [o “rapaz de camisa branca” que em fevereiro de 1998 durante uma “audiência pública” – organizada na Ohio State University, em Columbus, Ohio e transmitida ao vivo para o mundo todo pela CNN – desconcertou a secretária de Estado, o secretário de Defesa e o conselheiro de Segurança Nacional ao questionar sobre os bombardeios ao Iraque patrocinados pelo presidente Clinton].
Como já foi dito, não há uma cartilha ou método que te faça punk. Suas ações e seu modo de agir no cotidiano podem valer mais que mil canções. “Não Devemos Nada A Você” não tem fórmulas, mas diferentes teorias que podem despertar o desejo de montar uma banda, escrever um fanzine, começar um pequeno selo, rodar um documentário, reciclar lixo… Enfim, que possam te fazer querer levantar a bunda da cadeira e fazer mais, falar menos e tentar mudar algo verdadeiramente relevante. Tá esperando o quê? Faça você mesmo, afinal você não deve nada a ninguém!
Por Ricardo Tibiu
Novembro/2009
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