Em homenagem ou lembrança ao Dia Mundial do Rock, começamos uma série de posts que tentam passar o nosso ponto de vista sobre o ritmo que começou como contestador, foi vendido e recomprado várias vezes, mas continua atual e polêmico.
Nestas matérias abordaremos diversos fatores que compõe a estética e mágica que o Rock proporciona, tentando não se prender a clichês e resumos que é recorrente quando se fala nesse assunto.
Portanto, aqui você não encontrará aquelas famosas linhas cronológicas sobre o surgimento do rock, pois se você não viu isso em lugar nenhum, não tem necessidade de ler esses textos.
Essa matéria foi composta com ajuda das entrevistas feitas com Clids, Roger, Tony Aiex e Wladmyr Cruz, a cor em que aparecem seus nomes é para identificar os trechos em que usei suas citações.

Vocês São tudo roqueiro,né?
Quando não acontece em casa, por influência dos pais, é entre amigos ou na escola que se toma conhecimento do que é o rock. Fui abençoado por receber informação de todos os lados, desde muito pequeno, em casa a influência dos meus pais, a geração Rock In Rio I, que viu Queen ao vivo em São Paulo no longínquo ano de 1981.
Ainda em família, meu primo que hoje, na faixa dos 30, representa a primeira geração MTV, aquela com fortes referências de música americana me apresentou algumas verdades únicas, por exemplo, Pantera e Dead Kennedys são indiscutíveis em fator de música boa.
Com os amigos de rua e escola descobri o punk e o HxCx, depois de ouvir Ramones pela primeira vez tinha certeza que nada mais seria igual. As portas do caos e destruição foram escancaradas e não tinha mais volta, a partir dali era eterno o gosto pelo famigerado rock’n’roll!
O rock não é apenas música, envolve moda, comportamento, transgressão, quebra de barreiras e tabus. É um movimento social tal qual musical. Vivo, respiro e trabalho com rock hoje em dia. Tudo que me cerca e acredito, vem, direta ou indiretamente, do rock.
Essas palavras de Wladmyr Cruz, editor do ZonaPunk, traduzem a essência do que esse ritmo representa.
Como você se veste, encara o mundo e seu circulo de amizades, geralmente se relaciona com seus gostos musicais.
Não fosse o rock eu não teria conhecido pessoas geniais e eu aposto que muitas pessoas sentem da mesma forma. Além da diversão pessoal, o rock une as pessoas em torno de um gosto similar. Quem aqui nunca soltou aquele sorriso quando encontrou alguém que gostasse da mesma banda e perguntou “Po, você também gosta de The Clash?” . O que eu quero dizer é que o motivo não precisa ser a mudança radical do mundo ou do universo, desde que o rock já consiga realizar o papel de provocar uma mudança pessoal em cada um de seus fãs, já tá mais do que valendo.
Esse sentimento de inclusão descrito por Tony Aiex, do site Tenho Mais Discos Que Amigos, retrata o quanto se pode evoluir por causa de um simples gosto comum. Como tudo na vida, usar as referências que estão ao seu redor são providenciais para tornar as relações com seus semelhantes mais produtivas.
Não dá pra fugir! Pra onde você vai, seja pra novela das 8 ou pra abertura do BBB (Paulo Ricardo já foi roqueirasso! Pena que pelo jeito ele se esqueceu disso…) você sempre vai ter que ouvir um ou outro acorde mais pegado, que por vezes não é rock de verdade, mas vai te lembrar alguma coisa e com certeza você vai, inconscientemente, ouvir aquele disco antigo daquela banda meio psicodélica dos anos 70 ou daquela banda maquiada e assustadora dos anos 80 ou de alguma das poucas bandas legais do gênero dos 90. Rock é isso. Acaba sendo parte do seu dia.
A forma como o rock interage em nosso cotidiano, é assim simples, como disse meu grande amigo Clids. Por isso que um estilo musical acaba sendo tratado como movimento sócio-cultural. Interfere de maneira majoritária na vida de muitas pessoas.

É uma ligação entre quem produz e expressa seu ponto de vista e pessoas que compartilham dessa opinião comum. Muito mais sincero que em outros segmentos, como religiões, por exemplo, pois não há nada que dite as diretrizes. Não existe um livro ou um sacerdote que tenha predito as regras do rock. É simplesmente um acordo inconsciente entre amigos.
Sem regras e complicações, sempre híbrido.
Tem que aceitar misturas, é assim que ele evolui musicalmente e nos apresenta novidades. Sem mesclas e experimentalismos, estaríamos ouvindo a mesma coisa até hoje. As notas musicais são escassas.
O rock pode ser do jeito que o roqueiro quiser. Fosse o rock apenas “tradicional”, que graça teria? Não teríamos punk, metal, hardcore, indie e todos os demais subgêneros que existem hoje. Sem contar os sub-sub-gêneros e assim vai. A graça do rock é justamente essa. Você tem o rock lá em cima da pirâmide, mas abaixo dele você tem uma infinidade de possibilidades, que fazem com que tudo seja diferente e mais divertido.
Libertário, com certeza, é o melhor predicado desse estilo musical. É o que torna tão agradável a forma de como o consumimos.
O rock é uma via de escape, o rock é uma noite de diversão sozinho em casa ouvindo aquele mastepiece que você não pula uma faixa, é uma tarde com os seus amigos conversando e ouvindo Iron… Como diria Gene e Paul no famoso hino: I wanna rock and roll all night and party every day! E é o que todos nós queremos certo? E viva o dia mundial do rock né não?
Conceitos, preconceitos, estereótipos e motivos para comemorar
Lembro da minha época de estudante de ginásio, lá pelos 12 ou 13 anos “decidi” que era punk. Moicano, roupas rasgadas e todo o “kit completo” que é comprado quando resolvemos entrar para um movimento, clube ou algo parecido.
Por inexperiência e por afirmação acabei aderindo a diversas formas de expressão, vestuário, cabelo, linguajar, para me sentir representado. E claro, para chocar também. Queria ser ouvido.
Com o tempo aprendi que é muito mais fácil ser ouvido e ter atenção pelo conteúdo que você desenvolve, do que pelo visual agressivo. Acho maravilhoso um visual bem montado, gosto muito da estética punk, mas pra mim não dava certo.
Ouvindo pessoas mais experientes, como o Roger, vocalista do Ultraje A Rigor, tenho a certeza que as coisas realmente funcionam diferente da venda que a mídia faz do estereotipo do roqueiro.
“Rock é rock, assim como, por exemplo, samba é samba. Com o tempo a publicidade (principalmente) inventou algumas coisas que me incomodam um pouco. Tipo quanto mais pesado, mais rock, “atitude”, blusas pretas, etc. É claro que um roqueiro é um cara que gosta de rock. Pode até gostar de outra coisa, mas gostar de rock é o que faz dele um roqueiro e viver como um roqueiro. Seu espírito e seu jeito de ser o fazem gostar de rock e não o contrário. Não há atitude que transforme um pagodeiro, por exemplo, num roqueiro.”
Seguindo essa linha, incluo palavras do Clids, meu contemporâneo, mesma idade e mesmos gostos, porém que somou erros semelhantes aos meus.
“Não diria que (ser roqueiro) é um estilo de vida, como muitos dizem. Até mesmo porque têm muitos “roqueiros” por aí que não representam nem a metade do que acham que representam. Ser roqueiro não é ouvir o Black Sabbath e usar preto quando cola no cemitério pra acender uma vela e cantarolar os riffs do Iommi com a boca. Ser roqueiro é, por mais clichê que isso soe ser você. Você se desprende de tudo, liga o seu som no mais alto que você pode, deita e viaja. Essa é a pegada de verdade. Isso de querer pagar disso ou daquilo, de rebites e couro, é apenas um “extra”. Isso não faz ninguém mais roqueiro que ninguém, pode acreditar. Eu vejo em filmes os “roqueiros” todos muito maquiados, com cabelo estranho, anti-sociais e muitas vezes agressivos. Algo que não me agrada. Acho ridículo e até mesmo preconceituoso. Você não precisa usar preto, assustar seus familiares nem curtir o demônio pra ser roqueiro.”
Claro que existe muito mais do que visual no mundo do rock, mas o que acaba marcando sempre é a polemica e a comercialização que fazem de detalhes ou ícones. Exemplo clássico era a proibição da movimentação pélvica de Elvis em programas de TV nos anos 50.
Os pais, as senhoras em defesa da moral e dos bons costumes se sentiam ultrajados com aquela dança erótica, para os padrões da época, sendo veiculado em rede nacional.
Mas pensando bem, a proibição acabou expondo cada vez mais o nome de Elvis, como sempre acontece quando um assunto é polemizado, tornando-o muito popular. E como bom marketeiro que era (ou ainda é, pra quem acredita que ele está vivo), continuou sacudindo a pelve e vendendo milhares de discos.

Ele demonstrou atitude, foi contra a formalidade e padrões conservadores e se expôs da maneira que achava coerente. Muitos conceitos acabam se difundindo após o conhecimento de que se passa num ambiente tão eclético e desafiador, como o mundo do rock.
Para muitos que passaram algum tempo na convivência desse mundo paralelo, como Tony Aiex, várias experiências trazem valores que agregam aprendizado em suas vidas.
“Vindo da cena punk rock, onde eu me sinto mais à vontade, aprendi que a política do faça-você-mesmo é extremamente interessante e até inevitável em alguns momentos. Não esperar que as coisas caiam do céu e correr atrás são lemas que eu aprendi desde os tempo em que tinha banda e que carrego comigo até hoje.”
Mas um dia exclusivo para o rock? O que torna um estilo de música tão relevante para ter seu próprio dia e ser comemorado?
Tanto Wladmyr Cruz, quanto Roger ressaltam que por trás de toda a exposição midiática, existe sim um bom motivo.
“O dia existe por conta do Live AID, ou seja, por uma boa causa. Não sei se comemorar é o certo, já que pra mim, todo dia é dia de rock.”
“Mal tenho motivos para comemorar meu aniversário…:-). Mas é bom que se lembre que o Dia Mundial do Rock foi criado para lembrar o evento beneficente do Live AID.”
Live AID foi um concerto de rock realizado em 13 de julho de 1985. O evento foi organizado por Bob Geldof e Midge Ure com o objetivo de arrecadar fundos em prol dos famintos da Etiópia. Realizado simultaneamente, nas cidades de Londres, Filadélfia, Sidney, Moscou e Tóquio, tendo transmissão via satélite para um público estimado de 1,5 bilhão de espectadores, arrecadando aproximadamente 285 bilhões de dólares.
E agora que existe o Dia Mundial do Rock como esse homenageado se desenvolve nos próximos anos? Quais serão as novas misturas e tendências nos próximos anos?

Muita gente se lembra da primeira música que ouviu como rock, os primeiros acordes e a sensação de que algo realmente diferente vem daquele som. É fácil reconhecer logo nas primeiras batidas e as vezes vem de lugares inesperados.
“Lembro que em 94 eu ganhei meus primeiros discos (sim, bolachão mesmo) e eles foram: Get a Grip do Aerosmith, Alive III do Kiss e o Appetite for Destruction do Guns n’ Roses. Um dos meus primos me deu porque tava fazendo uma limpa no quarto e tudo o mais. Lembro que eu queria mesmo era ganhar a guitarra dele, mas mesmo assim saí no lucro. Ganhei esses três álbuns extremamente fodidos, por mais farofa que eles possam ser. Aí depois ganhei um vinil dos Cavaleiros do Zodíaco e hoje eu percebo que lá também tinha rock. E muito. Alguma coisa desses guitarristas cabeludos e super virtuosos com o vocal do Edu Falaschi que bem me lembro.”
“Green Day – “Hitchin’ A Ride” de 1998. Eu tinha 12 para 13 anos na época, e estava começando a formar meu gosto musical. Lembro de ver o clipe dessa música na TV e ficar extasiado, principalmente com a parte mais rápida da música onde o cenário todo do clipe era destruído por Billie Joe e Cia. Depois desse dia o resto é história.”
Tudo o que foi feito até hoje serve de referencia, o rock sempre esteve em evolução e movimento. Nos dias de hoje, com a facilidade na produção de musicas através de elementos eletrônicos e esse estilo é essencialmente orgânico, fica difícil saber como será o seu desenvolvimento nos próximos anos.
Pelo que tenho ouvido, acredito que as novas bandas estão bastante preocupadas em trabalhar muito a imagem e velocidade na veiculação de suas músicas. Pois a demanda dos fãs pede isso.
“Há algum tempo eu descobri uma banda que a cada dia tem me surpreendido mais com características que os fazem realmente sensacionais.
A banda é o Bomb The Music Industry! E os caras são geniais. Além de gravarem tudo no apartamento de seu mentor, Jeff Rosenstock, com microfones próprios em seu laptop, os caras disponibilizam todos seus discos inteiros para download no site da gravadora, que é deles também. Se você curte o som, vai lá e doa uma quantia de dinheiro que quiser ou compra o disco em vinil.
Pra fechar o “pacote” as músicas dos caras são extremamente divertidas, e ao mesmo tempo as letras de todas elas são inteligentes e te fazem pensar.
Enfim, conseguir divertir, fazer pensar, tudo por conta própria, deixando o ouvinte julgar quanto o trabalho vale são características que sintetizam tudo o que o rock significa pra mim.”
Tenho visto em São Paulo há alguns anos, o crescimento impressionante no número bandas em sites como MySpace, Tramavirtual, etc. A qualidade não tem sido a principal característica da maioria das bandas. Suponho que isso aconteça por alguns motivos.
Aquela premissa de ter uma banda para conseguir se expressar parece ter ficado para trás. O importante hoje é apenas aparecer, o conteúdo está sendo deixado de lado. Não que toda musica precise ser politizada, mas que faça algum mínimo sentido.
Não se fazem bandas como antigamente ou existem coisas que não podem ser comparadas? Quais é a banda que sintetiza o rock?
“Mötley Crüe na época do ‘Girls, Girls, Girls’. Uma banda que dois integrantes tem sextape, um morre por 5 minutos e o outro tem uma doença rara e mesmo assim continuam até hoje com shows fodidos. Ninguém ali é normal e é essa a graça do rock”
“Guns N’ Roses na época do “Appettite For Destruction”. Na época, a banda mais perigosa do mundo. Som, drogas, putas e quebra-quebra.”
“The Rolling Stones.”
A banda que sintetiza o rock sempre será diferente, depende do gosto de quem responde, mas com certeza será aquela que fez o estilo renascer e se reinventar.
E viva o Rock irmão, viva o Rock. Sábias palavras de um grande amigo das ruas de São Paulo.
Agradecimento especial a todos que colaboraram para a produção dessa matéria. Clids, Roger, Tony Aiex, Victor Guerra e Wladmyr Cruz.
Por Ikie Arjona
BlocoSe7e Staff















[...] This post was mentioned on Twitter by renan fabiano. renan fabiano said: RT @blocose7e: Vocês são tudo roqueiro, né? – Em homenagem ou lembrança ao Dia Mundial do Rock, começamos uma série de posts que te… http://ow.ly/187Ftt [...]